Cosmos | Por Carl Sagan

Setor espacial russo passa por reforma

Expressão “crise sistêmica” é utilizada sempre que se trata dos problemas da cosmonáutica russa. No entanto, alguns aspectos merecem referências especiais.

Serguêi Denisêntsev
 | Gazeta Russa

A falha no lançamento do foguete Proton-M em 2 de julho passado obrigou o governo russo a iniciar o mais rapidamente possível uma reforma do setor espacial nacional. Quão profunda é a crise sistêmica do setor espacial russo e o que pode ajudar a superá-la?

As imagens do desastre transmitidas pela televisão atraíram a atenção do governo e da sociedade para os problemas do setor.

A maioria dos especialistas e analistas sabe há tempos o que não está dando certo – a expressão “crise sistêmica” é utilizada sempre que se trata dos problemas da cosmonáutica russa. No entanto, alguns aspectos merecem referências especiais.

Pessoal

Uma das principais dificuldades é a falta de pessoal qualificado. Formalmente, não há problemas com a mão de obra: segundo estatísticas, as empresas da indústria espacial empregam 244 mil trabalhadores, mais do que as demais potências espaciais do mundo.

No entanto, o percentual de trabalhadores de meia-idade (a idade mais produtiva) entre os da indústria espacial é extremamente pequeno. Em segundo lugar, um número de trabalhadores tão grande é consequência da produtividade extremamente baixa. A baixa produtividade do trabalho, por sua vez, é uma das principais causas dos baixos salários pagos no setor, que são uma das causas do êxodo de pessoal qualificado.

Estrutura

A solução do problema de pessoal é impossível sem a consolidação da indústria espacial e a redução do número de empresas e de pessoal.

A Agência Espacial Russa (Roscosmos) está ciente disso e defende a ideia de criar uma corporação estatal semelhante à Rosatom (Corporação Estatal de Energia Atômica). Essa medida permitiria melhorar o gerenciamento da indústria e, consequentemente, a produtividade do trabalho e a qualidade dos produtos.

No entanto, a proposta encontra resistência das empresas do setor, que não querem perder sua independência. A situação atual é muito conveniente: elas vivem de contratos do governo e não têm concorrentes no mercado. Portanto, a questão da eficácia da produção e qualidade dos produtos é secundária, tanto que a responsabilidade pelas falhas recai sobre a Roscosmos.

Próxima reforma

O atual presidente da Roscosmos, Vladímir Popóvkin, realizou uma série de iniciativas audaciosas e necessárias que ninguém havia se atrevido a fazer antes. Em particular, mandou verificar a aplicação das verbas. Após uma série de inspeções surpresas em empresas do setor, alguns dirigentes foram demitidos.

As iniciativas de Popóvkin foram apoiadas pelo presidente Vladímir Pútin, que avançou a ideia de criar um ministério especial responsável pela indústria espacial. Na União Soviética, por exemplo, as empresas da indústria espacial respondiam ao Ministério Federal da Indústria de Máquinas e Equipamentos. Ao que tudo indica, o acidente com o foguete lançador Proton-M, causado por negligência durante as obras de montagem e um defeito estrutural do veículo, reforçou a convicção do governo de ser necessário reformar o setor espacial nacional. Segundo os boatos que correm nos bastidores da Roscomos, a respectiva deliberação já foi adotada e será, em breve, anunciada.

Novo setor espacial

Paralelamente à restruturação do setor espacial, o governo irá rever o Programa Federal Espacial, para torná-lo mais pragmático. O corte dos gastos com os voos tripulados (cujo efeito econômico é praticamente nulo) será acompanhado do aumento das verbas para o lançamento de satélites necessários à economia russa.

Outro ponto importante do novo programa será o aumento da participação da Roscosmos em projetos espaciais internacionais. Não serão preteridas as vertentes militar e científica da cosmonáutica russa. Finalmente, nos últimos dois anos, o país tem intensificado consideravelmente os esforços para a construção do centro de lançamentos espaciais de Vostóchni e do novo veículo lançador de satélites Angará, destinado a substituir o Proton.

Todas essas medidas permitem ter esperança de que o setor espacial russo supere o atual período difícil e que a Rússia permaneça no rol das maiores potências espaciais do mundo.

Serguêi Denisêntsev é especialista do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias




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