Cosmos | Por Carl Sagan

Mistério no céu de Brasília

Um objeto voador não identificado iluminou por alguns segundos a noite de sábado no DF e em Goiás. Cientistas investigam o fenômeno e não descartam que um meteorito tenha entrado na atmosfera terrestre



Diego Amorim e Renato Alves

Cientistas tentam desvendar o mistério em torno do facho de luz em tom verde que cortou o céu da capital do país na noite de sábado. Moradores do Distrito Federal viram um objeto voador não identificado (Ovni) com brilho e comportamento bem diferentes de um avião. Astrônomos acreditam se tratar de um meteorito ou pedaço desgarrado do cometa Lulin. Equipamentos da Universidade de Brasília (UnB) registraram um sinal ainda não explicado no nordeste de Goiás, onde habitantes também dizem ter presenciado um fenômeno parecido com o testemunhado pelos brasilienses.

Além do brilho, os goianos ouviram um estrondo no mesmo dia e horário em que os moradores do DF avistaram o facho de luz. Se caiu na Terra, é provável que o Ovni esteja em alguma fazenda de Divinópolis (GO), cidade de pouco mais de 5 mil habitantes a 460km de Brasília.

Moradores passaram o domingo e a segunda-feira procurando uma cratera ou rastro deixados pelo misterioso objeto, visto cruzando os céus do DF e Goiás entre as 19h20 e as 20h30. Até o fim da noite de ontem, não haviam achado nada.

O Correio encontrou 12 pessoas que afirmaram ter visto o Ovni — sete no DF e cinco em Goiás.

Enquanto passava de carro com o pai pela DF-001, próximo aos condomínios do Jardim Botânico, Caio, de 9 anos, gritou: “Olha um disco voador!”. Eram 19h20. O pai, o servidor público Lyel Campanatti, 42, parou o carro no acostamento e também avistou uma luz esverdeada cruzar o céu em altíssima velocidade. O fenômeno não durou mais que cinco segundos. “Parei o carro para esperar o estrondo.

Pensei que pudesse ser um avião caindo”, afirmou o pai. “Achei que era uma estrela cadente. Contei na escola, mas ninguém acreditou. Nunca tinha visto no céu algo diferente da lua e das estrelas”, comentou Caio.

Quando os dois chegaram em casa, a caçula Luara, de 6 anos, correu em direção ao pai para contar que também tinha visto uma “luz brilhosa” no céu. A mãe não havia acreditado na filha. “Eu estava voltando para casa com minha mãe. Aí eu tava no cantinho do carro. Quando olhei pela janela lá pra cima, vi um negócio verdinho passando no céu. Eu falei: ‘Mamãe, mamãe, olha o negócio verde voando!’

Mas aí passou uma árvore e ele sumiu”, relatou a menina. Luan, o filho mais velho de Lyel, estava assistindo à televisão na sala da casa e foi o único que não viu nada. “Acredito mais ou menos neles”, brincou. O pai acessou a internet afoito, mas não encontrou notícia alguma sobre o fato.

Ao ligar para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Lyel ouviu de um dos funcionários relato parecido. O meteorologista Manoel Rangel também viu o clarão quando chegava ao Inmet, no Sudoeste. “Achei que aquilo fosse cair, deixando um rastro. Nunca vi nada tão grande e tão baixo no céu”, acrescentou Rangel. Segundo ele, porém, o objeto foi se despedaçando rapidamente. “Mesmo se eu estivesse com uma câmera ia ser difícil registrar alguma coisa. Foi muito rápido”, disse.

Alienígena

O estudante Pedro Henrique Domingues, de 16 anos, estava com mais três amigos na praça do condomínio onde mora, no Grande Colorado. Por volta das 19h20 de sábado, ele se espantou com um facho de luz rasgando o céu. “Vi aquele negócio todo verde. Pensei que era, sei lá, um alienígena”, contou. Nenhum dos três amigos viu. E ninguém acreditou em Pedro. “Disseram que eu estava doido.

Mas eu vi. Cheguei em casa e ainda contei para minha mãe”, afirmou. Ele costuma ver estrelas cadentes de onde mora. Mas algo colorido, garantiu, foi a primeira vez.

Irmão de Pedro, Marcelo Domingues, de 37 anos, preside o Clube de Astronomia de Brasília. No telhado da casa dele, também no Grande Colorado, existe uma câmera capaz de registrar a passagem de meteoritos e Ovnis. O equipamento foi instalado em dezembro de 2008 e é o terceiro do tipo em funcionamento no Brasil — os outros dois ficam em São Paulo. Depois que soube do fenômeno, Marcelo vasculhou as imagens capturadas no sábado, mas não identificou nada anormal. “Pode ter sido o tempo nublado. E o equipamento ainda está em teste.”

Em 12 de fevereiro, a câmera gravou um objeto riscando o céu por 16s, provavelmente restos de um satélite no espaço. Já em relação ao fenômeno do último sábado, o servidor público e astrônomo amador acredita que tenha sido um meteorito. “A maioria deles explode no céu, quando chega à parte mais densa da atmosfera”, explicou Marcelo. “Se tivéssemos mais câmeras, poderíamos ter detectado o que houve no sábado.”

Policiais

Dois delegados e três policiais militares de Goiás também viram o facho de luz. Eles voltavam em dois carros de uma fazenda em Iaciara, onde investigavam o roubo de gados. Por volta das 21h30, na estrada entre Aciara e Divinópolis, viram a luz esverdeada. Ela clareou grande trecho da rodovia estadual e da mata nas duas margens. “De repente, cruzou na nossa frente esse facho de luz, a mais ou menos 1km. O que me deixou intrigado foi o modo como percorreu o céu, de forma retilínea. No fim, deu um pouco de cauda. Não tinha som”, contou André Fernandes de Almeida, delegado regional de Posse.

Moradores de Divinópolis falam em estrondo. Alguns dizem ter ouvido uma explosão após a queda do Ovni brilhante. Internautas também relataram o fenômeno em sites de ufologia. “O objeto mudou de cor azul para uma bola grande de fogo com cauda que parecia ter um farol que iluminou a cidade e depois se apagou. Logo depois surgiu uma grande explosão seguida de um tremor de terra.

Minha casa balançou e o teto tremeu”, descreveu Darcy Augusto, morador de São Domingos, vizinha a Divinópolis de Goiás.

REGISTROS

Cerca de 30 mil meteoritos foram recuperados e catalogados em todo o mundo 55 meteoritos foram recuperados e catalogados no Brasil

PARA SABER MAIS

Corpos celestes

# Meteorito é o fragmento de corpo sólido natural (asteroides, lua, cometas) que, vindo do espaço, penetra a atmosfera terrestre, incandesce-se pelo atrito com o ar e atinge a superfície.

# Os meteoritos são compostos de material primitivo. Por isso, são uma espécie de fósseis do sistema solar. Viajantes do espaço e do tempo, revelam as condições de formação do sol e dos planetas.

# A chegada de um meteorito é anunciada pela passagem de um grande meteoro, chiado e estrondos cacofônicos. Ao entrar na atmosfera, a maioria dos meteoritos se desintegra e vira pó.

# Os meteoritos em geral são mais densos que as rochas terrestres, principalmente os metálicos, que chegam a pesar três a quatro vezes mais que uma rocha terrestre de mesmo tamanho.

# Os meteoritos não possuem dimensões fixas. O peso varia de microgramas (micrometeoritos) a várias toneladas. Os meteoritos metálicos são os maiores.

# É improvável ser atingido por um meteorito. São raros os acidentes. Os mais famosos são o de um carro esmagado nos Estados Unidos, em 1938, e a morte de um cachorro, em 1911, no Egito.

Fonte: Museu Nacional do Rio de Janeiro

Em busca de esclarecimentos

A Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal de Goiás (UFG), o Museu Nacional do Rio de Janeiro e a Força Aérea Brasileira (FAB) investigam o fenômeno. Nenhum descarta a hipótese de ser um meteorito. “Mas só temos a constatação quando é encontrado algum pedaço dele”, afirmou a responsável pelo setor de meteoritos do Museu Nacional, a astrônoma Maria Elizabeth Zucolotto. A instituição é referência no estudo de meteoritos no Brasil. No entanto, o diretor do Planetário da UFG, o astrofísico Juan Marques Barrio, diz que nem mesmo imagens são suficientes para esclarecer fenômenos, pois “as nuvens podem tornar tudo muito diferente”.

Barrio descartou a possibilidade de o Ovni ser um satélite artificial em órbita bem próxima e visível ao olho nu. “Os radares da Aeronáutica não registraram nada. Também é difícil ser um avião, por causa do clarão”, comentou. O objeto pode ser um meteorito ou um pedaço do cometa Lulin, segundo Barrio. “Não é difícil que se desprenda um pedaço do cometa. Nesse caso, a entrada na atmosfera produz um estrondo. Como é feito de gelo, ele derrete antes de atingir o solo”, explicou. Os radares da FAB não registaram nenhum fenômeno atípico no dia e hora que os moradores avistaram o Ovni sobre Goiás e Brasília.

Sinal detectado

O Observatório Sismológico da UnB não registrou tremores de terra em Brasília nem no norte de Goiás na noite de sábado. No entanto, às 19h49, a estação de infrassom identificou um sinal a 26º a nordeste de Brasília. São Domingos fica a 36º nessa direção. “Só teremos certeza de que foi um meteorito se acharem alguma coisa. Mas tudo indica que sim”, comentou o engenheiro do observatório Lucas Moreira, especialista em processamento digital de sinais.

O meteorologista do Inmet Hamilton Carvalho não viu nada no sábado e não crê em meteorito. “Algumas descargas elétricas podem ganhar tonalidades verdes, azuis”, observou. A FAB informou que a Autoridade Operacional de Defesa Aeroespacial (Aoda), do Comando de Defesa Aeroespacial, não registrou qualquer Ovni na noite de sábado.

COMETA COM DUAS CAUDAS

Esverdeado, rápido, vindo de longe, circulando no sentido oposto ao dos planetas e com duas caudas, o cometa Lulin pôde ser visto no céu com brilho máximo na madrugada de 24 de fevereiro último, com ajuda de binóculos. Nesse dia, ele chegou a 60 milhões de quilômetros da Terra. Descoberto em 2007 por um grupo de astrônomos de Taiwan e da China, ele não deve orbitar a Terra nos próximos milhões de anos. O nome original do cometa é Lulin c/2007. A letra “c” indica que o corpo celeste tem uma órbita que dura mais de 200 anos.

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